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sábado, 24 de dezembro de 2011

DORMIR

O sono se exercita, remexe e agita:
Importuna ao que sob a alma habita,
Desconsidera o que tem ao alcance,
O sono dos justos, católicos e amantes.

Em cada agir não sentimos sonolência:
O sonho nos agride tal qual a violência,
Que imprime ao raciocínio a confusão,
Que embota os sentidos e turva a visão.

Ao dormir aquilo que vivo o que sonho,
Sinto minha identidade fugaz e atônita.
E entre o que penso e o que me pareço,
Sobram as trepadeiras no muro espesso.

Quando, então, chega a hora de voltar,
Já não vejo mais corpo, tempo e lugar.
 
 
Eduardo Ribeiro

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Poesia de Eduardo Ribeiro

TAUTOLOGIA

Acima e abaixo ou abaixo e acima,
A escrita percorrerá léguas a esmo,
Simulacro do ser frente a si mesmo,
Parricídio que nos devora e fascina.


Quem conceber a imagem do verso,
Será o poeta a instaurar o paradoxo,
Do rabisco dissimulado e heterodoxo,
A academia banida das letras inversas.


Não haverá o afã de buscar o reflexo,
Do retrato geométrico da assimetria,
Não restará dos prêmios um espectro.


Sê visionário e artífice da pobre rima,
Da matéria bruta e minério da poesia,
Diante das palavras e abaixo e acima.

Eduardo Ribeiro

sábado, 17 de setembro de 2011

Poesia de Paulo de Toledo


se a ubíqua imbecilidade insiste
em levar a sério
tudo isso que não passa de chiste
só resta um remédio
cravar-lhe no cu meu poema em riste


Paulo de Toledo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Poesia de Ricardo Aleixo

Minha linha




Que o dono da fala
nunca
permita que eu saia
da linha
a linha que
quanto mais torta
mais posso dizer
que é a minha

Sempre fui
meu próprio mestre
e é sem tristeza
que conto
que ainda não aprendi
nada
não me considero
pronto

Em matéria
tão complexa
quanto a arte
de entortar
a linha
que nem a morte
há de um dia
endireitar

Ricardo Aleixo

domingo, 21 de novembro de 2010

Poesia de Ricardo Silvestrin

Restam poucas chances.
Bate-boca,
todos os partidos,
um pouco de cinema,
o dedos dos profissionais,
o trem dos covardes,
uma faxina mental.
Pra quem tá a fim,
em um ano mil casos,
pista de corrida.
Amor:
assunto para amadores.
Prática desmente teoria.

Ricardo Silvestrin

sábado, 23 de outubro de 2010

Poesia de Lau Siqueira

cobaia

não existem
feridas que não
cicatrizem

mas a marca
funda de um olhar
amargo

dói como a dor
de um bicho
esmagado


Lau Siqueira

in O Comício das Veias -1999

sexta-feira, 5 de março de 2010

Poesia de Sandra Santos

Doravante Dora


Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Poesia de Ricardo Chacal

de manhã

a certeza de que as coisas
são assim mesmo
maneiríssimas
de que você fica
muito bem
ao meu lado.

bom dia

Ricardo Chacal

Poesia de Alexandre Brito

a rede


mergulhado na tarde esquisita
cometo uma ideia aqui outra ali
entrevejo a mulher que eu adoro
e me divirto

aspiro rapé
alguns decímetros cúbicos de ar
e um poema beat desmesurado

"...a irrealidade é meu chão
e o esquecimento a minha bússola"

há que dispormos das armas necessárias no cinto de mil e uma inutilidades para enfrentar os malfeitores, a burocracia maquiavélica oficial remunerada e os arque-inimigos do Pasquim

mergulhado nessa esquisitice completa
faço anotações pra depois do crepúsculo

o crepúsculo tem músculos, oníricos músculos
e tudo ronrona depois do crepúsculo
basta esticar o dedo e pedir uma carona que ele te leva onde ninguém
só você

cochilo sobre essa ideia
"...depois do crepúsculo tudo ronrona"

desperto hirto

aquela manhã morna virou essa tarde quente

ê modorra pachorrenta... antes uma rede
meu reino por uma rede

a mulher que eu adoro se despe
abre suas asas de delícias sobre nossa cama
quero o que ela quer

o poema pode esperar

Alexandre Brito

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Poesia de Wilmar Silva

NOA

meni de sant exili te quero
aqui agora no meio de mi
meni de sant exili me quero
aqui agora no meio de mi

meni de sant exili te quero
aqui agora no meio de mi
meni de sant exili me quero
aqui agora no meio de mi

aqui agora no meio de mi
meni de sant exili me quero
aqui agora no meio de mi

aqui agora no meio de mi
meni de sant exili me quero
aqui agora no meio de mi

meni de sant exili no quero

Wilmar Silva

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Poesia de Artur Gomes

Bolero Blue

beber desse conhac em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entre/dentes
indecente é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai


Artur Gomes

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poesia de Ademir Assunção

O COISA RUIM
me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal
me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso
mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto, tufão, furacão
mas eu sou cão
lato
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses
toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato
eu sou o que sangra
um poeta nato

Ademir Assunção

terça-feira, 23 de junho de 2009

Poesia de Antonio Carlos Barreto

AGALOPADO

Sou mais que as manadas ao som do chocalho,
esteira de prata nas larvas de fogo,
transtorno de outono buscando agasalho:
espadas, mugidos, relógios, agouros.

O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.

Lonjuras, espinhos, mais um retirante;
que pasme a cidade ante o vôo do condor
e a orquestra afinada dos ventos uivantes

no entulho da morte dos sonhos de amor.
Não morro no inferno traçado por Dante
porque codifico a loucura que sou.

Antonio Carlos Barreto



quarta-feira, 13 de maio de 2009

Poesia de Miguel Carneiro para Kzé

PARA EMBALAR KZÉ EM SEU DELÍRIO NOTURNO

Em memória de José Narciso de Magalhães Carvalho Moraes Filho, ZECA DE MAGALHÃES (1959-2007)

“Aliás não temos aqui cidade permanente, vamos em busca da futura.” Hebreus, 13-15. 

Numa sexta-feira,
em Pindorama,
quando a folia momesca,
reinava na velha província da Baía de Todos os Santos e Inevitáveis Demônios.
Entre a cana,
o colosso dos camarotes da Barra
e a falsa alegria,
e o Tempo com sua traíragem,
que resolveu te tirar de campo,
te descendo do telhado.
Deixou os teus,
órfãos de tua amizade
e de tua poesia.
Não era ainda
nem segundo tempo,
e nem havíamos ganhado o jogo.
Mas,
em memória de ti,
poeta leminskiano,
abominador da mediocridade poética baiana de igrejinhas e confrarias cafonas.
Não recolheremos nossas bandeiras,
nem meteremos nossos rabos entre as pernas,
nem ficaremos desiludidos,
nem abaixaremos nossas frontes
para os chacais da palavra.
Ficamos,sim,
aqui,
todos os teus,
que te foram ternos,
passando uma chuva
com teu verso clandestino na memória
e aquela certeza absoluta
que a tua luta
não foi em vão.
Ficaram poucos...
Mas teu nome, Narciso,
será sempre eterno em meu coração.

25/02/2007

Miguel Carneiro