Eu agradeço tudo o que não tive.
Tudo o que não tive não precisa
ser perdido ou apagado. Ninguém
me arrancará dos braços o que não
abracei. a ferrugem estanca a gula
na borda desse nada a perder.
E mais agradeço o que não necessitei
e não tive. O que pedi e implorei,
e não tive. O peso imaterial, pesado
de carregar ou de engavetar, do que
não tive. A constelação longínqua
a um palmo do desejo de não tê-la.
Igual ao olvido de haver nascido
e escrever. O tumulto das luzes
nas altas ervas da cama. O que
a tinta não raptou com a escrita.
Maria Carpi
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Poesia de Eduardo Ribeiro
TAUTOLOGIA
Acima e abaixo ou abaixo e acima,
A escrita percorrerá léguas a esmo,
Simulacro do ser frente a si mesmo,
Parricídio que nos devora e fascina.
Quem conceber a imagem do verso,
Será o poeta a instaurar o paradoxo,
Do rabisco dissimulado e heterodoxo,
A academia banida das letras inversas.
Não haverá o afã de buscar o reflexo,
Do retrato geométrico da assimetria,
Não restará dos prêmios um espectro.
Sê visionário e artífice da pobre rima,
Da matéria bruta e minério da poesia,
Diante das palavras e abaixo e acima.
Eduardo Ribeiro
Acima e abaixo ou abaixo e acima,
A escrita percorrerá léguas a esmo,
Simulacro do ser frente a si mesmo,
Parricídio que nos devora e fascina.
Quem conceber a imagem do verso,
Será o poeta a instaurar o paradoxo,
Do rabisco dissimulado e heterodoxo,
A academia banida das letras inversas.
Não haverá o afã de buscar o reflexo,
Do retrato geométrico da assimetria,
Não restará dos prêmios um espectro.
Sê visionário e artífice da pobre rima,
Da matéria bruta e minério da poesia,
Diante das palavras e abaixo e acima.
Eduardo Ribeiro
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Poesia de Álvaro de Santi
MEIO-DIA
Sol a pino
Olhar fixo no prato
Está sentado o homem
Imerso no burburinho
De um restaurante qualquer
Há centenas de coisas
A serem feitas à tarde
E as que não foram de manhã
Tão estranho pedir-lhe
Que saboreie o almoço
Ativo burguês
Corre em torno de si
E corre em busca do quê?
Azeite nas juntas
Energia e decisão
- A conta, por favor
Álvaro de Santis
Sol a pino
Olhar fixo no prato
Está sentado o homem
Imerso no burburinho
De um restaurante qualquer
Há centenas de coisas
A serem feitas à tarde
E as que não foram de manhã
Tão estranho pedir-lhe
Que saboreie o almoço
Ativo burguês
Corre em torno de si
E corre em busca do quê?
Azeite nas juntas
Energia e decisão
- A conta, por favor
Álvaro de Santis
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Poesia de Wender Montenegro
A DESPEITO DE SARTRE
Se todo homem é uma ilha
onde um náufrago respira;
se o outro é firme sustentáculo
sem o qual cairíamos
- inertes -
com o fardo medonho do ego;
se o inferno do tolo é o ouro,
não o de tolo mas, o outro:
o que reluz de verdadeiro,
áureo desejo do comum dos homens
(autólatras anônimos,
ébrios Narcisos espelhando-se
em vômito);
se nenhum homem é uma trilha
intransitável aos demais,
quem será o inferno do homem?
Se todo homem é uma ilha
onde um náufrago respira;
se o outro é firme sustentáculo
sem o qual cairíamos
- inertes -
com o fardo medonho do ego;
se o inferno do tolo é o ouro,
não o de tolo mas, o outro:
o que reluz de verdadeiro,
áureo desejo do comum dos homens
(autólatras anônimos,
ébrios Narcisos espelhando-se
em vômito);
se nenhum homem é uma trilha
intransitável aos demais,
quem será o inferno do homem?
Wender Montenegro
sábado, 17 de setembro de 2011
Poesia de Paulo de Toledo
se a ubíqua imbecilidade insiste
em levar a sério
tudo isso que não passa de chiste
só resta um remédio
cravar-lhe no cu meu poema em riste
Paulo de Toledo
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Poesia de Ronald Augusto
souza
cruz
&
um cômputo de fumaça
entre ele e o mundo
Ronald Augusto
cruz
&
um cômputo de fumaça
entre ele e o mundo
Ronald Augusto
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Ronald Augusto
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Poesia de Ricardo Aleixo
Minha linha
Que o dono da fala
nunca
permita que eu saia
da linha
a linha que
quanto mais torta
mais posso dizer
que é a minha
Sempre fui
meu próprio mestre
e é sem tristeza
que conto
que ainda não aprendi
nada
não me considero
pronto
Em matéria
tão complexa
quanto a arte
de entortar
a linha
que nem a morte
há de um dia
endireitar
Ricardo Aleixo
Que o dono da fala
nunca
permita que eu saia
da linha
a linha que
quanto mais torta
mais posso dizer
que é a minha
Sempre fui
meu próprio mestre
e é sem tristeza
que conto
que ainda não aprendi
nada
não me considero
pronto
Em matéria
tão complexa
quanto a arte
de entortar
a linha
que nem a morte
há de um dia
endireitar
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sexta-feira, 5 de março de 2010
Poesia de Sandra Santos
Doravante Dora
Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos
Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos
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domingo, 6 de dezembro de 2009
Poesia de Maria da Conceição Paranhos
[NÃO SE TECE A VIDA]
Não se tece a vida
em teares mecânicos.
Nada inda foi dito.
Expatriado, choras
teu perdido anelo
de estar frente aos altares
de onde recende a luz
do alto, te transporta.
Quando levitas, ousas
sorrir e assim prossegues
— cintilas nesta noite
de sombra cerrada.
O divino transporta
teu viver encantado.
Maria da Conceição Paranhos
Não se tece a vida
em teares mecânicos.
Nada inda foi dito.
Expatriado, choras
teu perdido anelo
de estar frente aos altares
de onde recende a luz
do alto, te transporta.
Quando levitas, ousas
sorrir e assim prossegues
— cintilas nesta noite
de sombra cerrada.
O divino transporta
teu viver encantado.
Maria da Conceição Paranhos
sábado, 28 de novembro de 2009
Poesia de Nicolas Behr
neste país sem memória
vou construir um memorial
em memória de todos
vou construir um memorial
em memória de todos
os construtores de cidades
Memorial JKLMNOPQRSTUVXZ
Memorial JKLMNOPQRSTUVXZ
Nicolas Behr
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Poesia de Renato Suttana
UM OLHO
I
Um olho
baço,
cego,
e nenhum
pensamento
na noite opaca.
E estar girando
como uma
folha
seca
no vento:
o vento
não é nenhum
pensamento.
Não é
senão
o que sopra
lá fora.
(Seu assobio
nos beirais.)
Um olho
neutro, nulo –
porém cego,
na noite
fria.
II
Vasto
é o círculo
que a noite traça
ao redor
do olho:
e negro
e lento
e impenetrável
por dentro
como um caroço
na treva –
como uma
pedra.
E espesso
mais que o
pensamento
que tenta
atravessá-lo
na
escuridão.
Renato Suttana
I
Um olho
baço,
cego,
e nenhum
pensamento
na noite opaca.
E estar girando
como uma
folha
seca
no vento:
o vento
não é nenhum
pensamento.
Não é
senão
o que sopra
lá fora.
(Seu assobio
nos beirais.)
Um olho
neutro, nulo –
porém cego,
na noite
fria.
II
Vasto
é o círculo
que a noite traça
ao redor
do olho:
e negro
e lento
e impenetrável
por dentro
como um caroço
na treva –
como uma
pedra.
E espesso
mais que o
pensamento
que tenta
atravessá-lo
na
escuridão.
Renato Suttana
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Poesia de Artur Gomes
Bolero Blue
beber desse conhac em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entre/dentes
indecente é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai
Artur Gomes
beber desse conhac em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entre/dentes
indecente é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai
Artur Gomes
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Poesia de Ademir Assunção
O COISA RUIM
me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal
me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso
mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto, tufão, furacão
mas eu sou cão
lato
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses
toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato
eu sou o que sangra
um poeta nato
Ademir Assunção
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Poesia de Marília Kubota
EXAUSTO
Saudades de Adélia Prado.
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Marilia Kubota
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Poesia de Rodrigo de Souza Leão
Um poema ou um poente
Tudo tem um forte sentido
Quando não se oprime o indivíduo
Alguém soletra uma distância
A distância separa os fatos
A verdade não é tão necessária
Já que Heráclito já morreu
Rodrigo de Souza Leão
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Poesia de Claudio Daniel
Sêneca Dor é algo atroz (fungos violeta). Água sonora, vai de uma a outra concha, ama- relece (folha de trevo) e cai. Diz então, em que ilha- olho-de-chama —Ítaca, talvez — vesti-me de pele desolada, e padeci, fera entre feras? Por que, brutal, me arrasto nesta terra? Para a glória do Sublime? Por meus débitos, hora de decepar vogais? Cala Sibila, calam Córdova e Roma, sou todo farelo, e se fecha a porta do canto. Que direi a mim, após celebrar o rito da memória? — Bebe o teu vinho e aceita o universo, eis o caminho da iniciação. 1999
Claudio Daniel
terça-feira, 23 de junho de 2009
Poesia de Antonio Carlos Barreto
AGALOPADO
Sou mais que as manadas ao som do chocalho,
esteira de prata nas larvas de fogo,
transtorno de outono buscando agasalho:
espadas, mugidos, relógios, agouros.
O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.
Lonjuras, espinhos, mais um retirante;
que pasme a cidade ante o vôo do condor
e a orquestra afinada dos ventos uivantes
no entulho da morte dos sonhos de amor.
Não morro no inferno traçado por Dante
porque codifico a loucura que sou.
Antonio Carlos Barreto
esteira de prata nas larvas de fogo,
transtorno de outono buscando agasalho:
espadas, mugidos, relógios, agouros.
O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.
que pasme a cidade ante o vôo do condor
e a orquestra afinada dos ventos uivantes
Não morro no inferno traçado por Dante
porque codifico a loucura que sou.
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
Poesia de Miguel Carneiro para Kzé
PARA EMBALAR KZÉ EM SEU DELÍRIO NOTURNO
Em memória de José Narciso de Magalhães Carvalho Moraes Filho, ZECA DE MAGALHÃES (1959-2007)
“Aliás não temos aqui cidade permanente, vamos em busca da futura.” Hebreus, 13-15.
em Pindorama,
quando a folia momesca,
reinava na velha província da Baía de Todos os Santos e Inevitáveis Demônios.
Entre a cana,
o colosso dos camarotes da Barra
e a falsa alegria,
e o Tempo com sua traíragem,
que resolveu te tirar de campo,
te descendo do telhado.
Deixou os teus,
órfãos de tua amizade
e de tua poesia.
Não era ainda
nem segundo tempo,
e nem havíamos ganhado o jogo.
Mas,
em memória de ti,
poeta leminskiano,
abominador da mediocridade poética baiana de igrejinhas e confrarias cafonas.
Não recolheremos nossas bandeiras,
nem meteremos nossos rabos entre as pernas,
nem ficaremos desiludidos,
nem abaixaremos nossas frontes
para os chacais da palavra.
Ficamos,sim,
aqui,
todos os teus,
que te foram ternos,
passando uma chuva
com teu verso clandestino na memória
e aquela certeza absoluta
que a tua luta
não foi em vão.
Ficaram poucos...
Mas teu nome, Narciso,
será sempre eterno em meu coração.
25/02/2007
Miguel Carneiro
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Poesia de Wladimir Saldanha
MARINHA COM CACHORROS
Vi-os latirem para o mar,
treparem nas pedras que se empilham
no sopé do Mont Serrat
enquanto branquejavam murada
e bastiões do velho forte, feito museu.
Vi-os, cachorros, compondo seu balé de ferozes,
cheirando o quê, de meio à maresia,
era almíscar de fêmea, certeza de prole,
corneta indeclinável,
inodora para mim.
Vi-os maquinando a matilha
de focinhos de virilhas
e, de estéreis rochedos,
urdindo promíscua ilha.
Não os vi chegar. Mais cedo,
que eu, que transitava à toa,
teriam eles, cães, sido impelidos
a desertarem ruas, deveres de guarda,
ossos de aves. E gatos. E desertaram,
e o séquito
rumara colorido para a praia.
Ladravam para as ondas – vi-os. E as ondas
brigavam entre si, elas alheias:
Cães são navios. Eles, úmidos,
mantinham-se ali, caninos porém:
como salgando-se... Até
que desciam; mas subiam novamente
– eu sem entender. Às vezes,
um a outro abocanhava, mas irado,
não apenas por mostrar-se.
Era de tarde: trezentos e tantos da invasão holandesa.
Grato, mui grato,
o portentoso forte,
com seus fantasmas, com seus canhões apontados para o poente,
guarnecia o cio.
Wladimir Saldanha
Vi-os latirem para o mar,
treparem nas pedras que se empilham
no sopé do Mont Serrat
enquanto branquejavam murada
e bastiões do velho forte, feito museu.
Vi-os, cachorros, compondo seu balé de ferozes,
cheirando o quê, de meio à maresia,
era almíscar de fêmea, certeza de prole,
corneta indeclinável,
inodora para mim.
Vi-os maquinando a matilha
de focinhos de virilhas
e, de estéreis rochedos,
urdindo promíscua ilha.
Não os vi chegar. Mais cedo,
que eu, que transitava à toa,
teriam eles, cães, sido impelidos
a desertarem ruas, deveres de guarda,
ossos de aves. E gatos. E desertaram,
e o séquito
rumara colorido para a praia.
Ladravam para as ondas – vi-os. E as ondas
brigavam entre si, elas alheias:
Cães são navios. Eles, úmidos,
mantinham-se ali, caninos porém:
como salgando-se... Até
que desciam; mas subiam novamente
– eu sem entender. Às vezes,
um a outro abocanhava, mas irado,
não apenas por mostrar-se.
Era de tarde: trezentos e tantos da invasão holandesa.
Grato, mui grato,
o portentoso forte,
com seus fantasmas, com seus canhões apontados para o poente,
guarnecia o cio.
Wladimir Saldanha
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