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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poesia de Álvaro de Santi

MEIO-DIA

Sol a pino
Olhar fixo no prato
Está sentado o homem
Imerso no burburinho
De um restaurante qualquer

Há centenas de coisas
A serem feitas à tarde
E as que não foram de manhã
Tão estranho pedir-lhe
Que saboreie o almoço

Ativo burguês
Corre em torno de si
E corre em busca do quê?
Azeite nas juntas
Energia e decisão

- A conta, por favor

Álvaro de Santis

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Poesia de Wender Montenegro

A DESPEITO DE SARTRE


Se todo homem é uma ilha
onde um náufrago respira;
se o outro é firme sustentáculo
sem o qual cairíamos
- inertes -
com o fardo medonho do ego;

se o inferno do tolo é o ouro,
não o de tolo mas, o outro:
o que reluz de verdadeiro,
áureo desejo do comum dos homens
(autólatras anônimos,
ébrios Narcisos espelhando-se
em vômito);

se nenhum homem é uma trilha
intransitável aos demais,
quem será o inferno do homem?

Wender Montenegro

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Poesia de Ricardo Aleixo

Minha linha




Que o dono da fala
nunca
permita que eu saia
da linha
a linha que
quanto mais torta
mais posso dizer
que é a minha

Sempre fui
meu próprio mestre
e é sem tristeza
que conto
que ainda não aprendi
nada
não me considero
pronto

Em matéria
tão complexa
quanto a arte
de entortar
a linha
que nem a morte
há de um dia
endireitar

Ricardo Aleixo

domingo, 21 de novembro de 2010

Poesia de Ricardo Silvestrin

Restam poucas chances.
Bate-boca,
todos os partidos,
um pouco de cinema,
o dedos dos profissionais,
o trem dos covardes,
uma faxina mental.
Pra quem tá a fim,
em um ano mil casos,
pista de corrida.
Amor:
assunto para amadores.
Prática desmente teoria.

Ricardo Silvestrin

sábado, 23 de outubro de 2010

Poesia de Lau Siqueira

cobaia

não existem
feridas que não
cicatrizem

mas a marca
funda de um olhar
amargo

dói como a dor
de um bicho
esmagado


Lau Siqueira

in O Comício das Veias -1999

sexta-feira, 5 de março de 2010

Poesia de Sandra Santos

Doravante Dora


Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Poesia de Ricardo Chacal

de manhã

a certeza de que as coisas
são assim mesmo
maneiríssimas
de que você fica
muito bem
ao meu lado.

bom dia

Ricardo Chacal

domingo, 6 de dezembro de 2009

Poesia de Maria da Conceição Paranhos

[NÃO SE TECE A VIDA]

Não se tece a vida
em teares mecânicos.
Nada inda foi dito.

Expatriado, choras
teu perdido anelo
de estar frente aos altares
de onde recende a luz
do alto, te transporta.

Quando levitas, ousas
sorrir e assim prossegues
— cintilas nesta noite
de sombra cerrada.
O divino transporta
teu viver encantado.

Maria da Conceição Paranhos

sábado, 28 de novembro de 2009

Poesia de Nicolas Behr

neste país sem memória
vou construir um memorial
em memória de todos 
os construtores de cidades

Memorial JKLMNOPQRSTUVXZ


Nicolas Behr

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Poesia de Renato Suttana

UM OLHO

I

Um olho
baço,
cego,
e nenhum
pensamento

na noite opaca.
E estar girando
como uma
folha
seca

no vento:
o vento
não é nenhum
pensamento.
Não é

senão
o que sopra
lá fora.
(Seu assobio
nos beirais.)

Um olho
neutro, nulo –
porém cego,
na noite
fria.


II

Vasto
é o círculo
que a noite traça
ao redor
do olho:

e negro
e lento
e impenetrável
por dentro
como um caroço

na treva –
como uma
pedra.
E espesso
mais que o

pensamento
que tenta
atravessá-lo
na
escuridão.
 

Renato Suttana

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Poesia de Claudio Daniel


Sêneca


Dor é algo
atroz (fungos
violeta). Água
sonora, vai
de uma a outra
concha, ama-
relece (folha 
de trevo) e
cai. Diz então,
em que ilha-
olho-de-chama 
—Ítaca, talvez — 
vesti-me de pele 
desolada,
e padeci, fera 
entre feras? 
Por que, brutal, 
me arrasto 
nesta terra? 
Para a glória 
do Sublime? 
Por meus débitos, 
hora de decepar 
vogais? Cala Sibila,
calam Córdova
e Roma, sou todo
farelo, e se fecha
a porta do canto. 
Que direi a mim,
após celebrar
o rito da memória?

— Bebe o teu vinho
 e aceita o universo,
eis o caminho 
da iniciação.
 
  1999

Claudio Daniel

terça-feira, 23 de junho de 2009

Poesia de Antonio Carlos Barreto

AGALOPADO

Sou mais que as manadas ao som do chocalho,
esteira de prata nas larvas de fogo,
transtorno de outono buscando agasalho:
espadas, mugidos, relógios, agouros.

O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.

Lonjuras, espinhos, mais um retirante;
que pasme a cidade ante o vôo do condor
e a orquestra afinada dos ventos uivantes

no entulho da morte dos sonhos de amor.
Não morro no inferno traçado por Dante
porque codifico a loucura que sou.

Antonio Carlos Barreto



quarta-feira, 15 de abril de 2009

Poesia de Wladimir Saldanha

MARINHA COM CACHORROS

Vi-os latirem para o mar,
treparem nas pedras que se empilham
no sopé do Mont Serrat
enquanto branquejavam murada
e bastiões do velho forte, feito museu.
Vi-os, cachorros, compondo seu balé de ferozes,
cheirando o quê, de meio à maresia,
era almíscar de fêmea, certeza de prole,
corneta indeclinável,
inodora para mim.
Vi-os maquinando a matilha
de focinhos de virilhas
e, de estéreis rochedos,
urdindo promíscua ilha.
Não os vi chegar. Mais cedo,
que eu, que transitava à toa,
teriam eles, cães, sido impelidos
a desertarem ruas, deveres de guarda,
ossos de aves. E gatos. E desertaram,
e o séquito
rumara colorido para a praia.

Ladravam para as ondas – vi-os. E as ondas
brigavam entre si, elas alheias:
Cães são navios. Eles, úmidos,
mantinham-se ali, caninos porém:
como salgando-se...  Até
que desciam; mas subiam novamente
– eu sem entender. Às vezes,
um a outro abocanhava, mas irado,
não apenas por mostrar-se.

Era de tarde: trezentos e tantos da invasão holandesa.

Grato, mui grato,
o portentoso forte,
com seus fantasmas, com seus canhões apontados para o poente,
guarnecia o cio.

Wladimir Saldanha